segunda-feira, 21 de junho de 2010

Os três poetas estavam sentados:
JUNTO DA CISTERNA...





Ateu olhava o negro poço cintilante, parecia-lhe ver algo movendo-se lá em baixo, sombras lutando entre si, uma imensa garganta tragando vultos esbracejantes desaparecendo e aparecendo, reagrupando-se num grande puzzle de luz
Agnóstico mãos apoiadas nas velhas cantarias onde lírios e rosas aos cachos se entrelaçam , olhava as unhas anémicas, dedos afilados, artísticos!
O escuro sempre o angustiara. O que não entendia remetia para um limbo, essa imensa piscina de nados mortos, entrechocando-se em todas as direcções num eterno vaivém
Crente olhos postos no horizonte procurava sinais. O Céu era o limite, tudo tinha de ser dito absorvido no seu azul opaco, diluindo diferenças, inusitadas monotonias da mente adormecida entre o sono e a vigília, um surrealismo fecundo de supresas, a selva do realismo fantástico na voz do velho sábio Guarani:

-As Aranhas tecem as teias nas orelhas dos macacos, que se aborrecem de falar com papagaios”




No ano da morte do Zé Saramago 2010