segunda-feira, 21 de junho de 2010

Os três poetas estavam sentados:
JUNTO DA CISTERNA...





Ateu olhava o negro poço cintilante, parecia-lhe ver algo movendo-se lá em baixo, sombras lutando entre si, uma imensa garganta tragando vultos esbracejantes desaparecendo e aparecendo, reagrupando-se num grande puzzle de luz
Agnóstico mãos apoiadas nas velhas cantarias onde lírios e rosas aos cachos se entrelaçam , olhava as unhas anémicas, dedos afilados, artísticos!
O escuro sempre o angustiara. O que não entendia remetia para um limbo, essa imensa piscina de nados mortos, entrechocando-se em todas as direcções num eterno vaivém
Crente olhos postos no horizonte procurava sinais. O Céu era o limite, tudo tinha de ser dito absorvido no seu azul opaco, diluindo diferenças, inusitadas monotonias da mente adormecida entre o sono e a vigília, um surrealismo fecundo de supresas, a selva do realismo fantástico na voz do velho sábio Guarani:

-As Aranhas tecem as teias nas orelhas dos macacos, que se aborrecem de falar com papagaios”




No ano da morte do Zé Saramago 2010

sábado, 22 de maio de 2010

Antigamente - nos tempos em que transporte significava cavalo, e iluminação significava lamparina de óleo - a vida era muito diferente de hoje. A fabricação de um fogão, por exemplo, era uma tarefa impensavelmente difícil: o ferreiro-artesão, quase sempre analfabeto, tinha que compreender e dominar todas as etapas do processo; desde elaborar o projeto em sua cabeça, até construir o artefato sozinho, usando toscas ferramentas como forno de lenha, martelo, bigorna... Com meios tão precários, não é à toa que os suportes para as panelas acabassem parecendo algo assim: Uma forma tosca, sem qualquer estilo ou design, que servia apenas para sustentar panelas e nada mais... Mas há um detalhe: funcionava! Sustentava panelas... de qualquer tipo ou formato. Hoje tudo é completamente diferente. No mundo globalizado, o projeto de um fogão é feito por dezenas de profissionais especializados e pós-graduados nas mais diversas áreas: marketing, design, engenharia... O desenho é feito não em uma única cabeça exausta, nem em uma prancheta, mas sim em ultra-computadores com moderníssimos CAD, que geram imagens tridimensionais animadas, que podem ser rotacionadas e observadas sob todos os ângulos possíveis. No fim, com tudo isso, os suportes para as panelas acabam ficando assim: Um design arrojado, atual, sofisticado... realmente o máximo... próprio para pessoas com estilo, que sabem o que é bom... Mas há um porém: ele não serve para apoiar panelas. Ao contrário daquele desenho do velho ferreiro, este não oferece apoio contínuo ao longo de quatro direções. Ele deixa pontos instáveis à frente e atrás, e, assim, se uma panela média for colocada sobre ele, com o cabo virado para frente ou para trás, ela tomba sozinha. Sei bem disso porque esse é o fogão que tenho em casa. Mas os problemas não param aí. Além da perigosa armadilha das panelas que tombam sozinhas, esse prodígio moderno tem um sistema de prateleiras no forno (do tipo que vem para a frente quando a porta abre) que fica inclinado uns 10 graus, fazendo com que os bolos queimem de um lado e fiquem crus do outro! Em resumo: a sofisticada equipe de profissionais criou um fogão que não serve nem para cozinhar nem para assar! Surpreendente? Nem tanto. Na verdade, o caso do fogão é apenas a ponta do iceberg. Atrás dele está o mais grave problema do mundo moderno: a imbecilização de todos nós. Antigamente, o ferreiro não imaginava que acima dele existisse alguém ou algo cuidando do rumo das coisas. Ele próprio tinha que pensar e decidir cada detalhe do fogão, e sabia que, se não o fizesse, ninguém faria. Ele era dedicado à sua atividade tanto quanto os animais na natureza são dedicados às deles. Mas se pegarmos um animal e o prendermos em uma jaula - onde ele não precise caçar, nem fugir dos perigos - a dedicação e o interesse acabam. Esse é o homem moderno. Um ser aprisionado, cujas principais responsabilidades e decisões estão nas mãos de outros: o Estado, a empresa, a mídia... Estes o tratam como um eterno moleque em uma eterna escola; e ele acaba se tornando exatamente isso. Roubaram do homem o atributo mais precioso que a natureza lhe deu: a responsabilidade por sua própria vida. Tiraram o projeto do fogão de sua mente, e o colocaram em um CAD. Substituíram a maravilhosa criatividade de suas mãos por gestos maquinais em uma linha industrial. E o que restou? Dúzias de especialistas para cada minúcia do fogão (e da vida), e nenhum ferreiro que compreenda o fogão (ou a vida) por inteiro. Este artigo é o primeiro de uma série sobre a modernidade. Através deles, tentarei mostrar como - além de estarmos perdendo nossa dignidade natural - estamos nos trancafiando em um zoológico que não funciona! ... mostrar que a era das trevas... é agora. PS: Se alguém souber de um bom ferreiro, por favor me avise. André Carlos Salzano Masini
O elevador entupido impedia os inquilinos do rés do chão de sair do edifico pela boca do incêndio.A situação conduzia a alucinações incomodas, tonturas e desfalecimentos Bill era obrigado a reagir, erguia-se subito e circulava em volta dos próprios pés, engoliria em seco todos os sapos que pudesse o importante era sair daquele estado de alerta máximo.Cá em baixo outro tipo olhava-o estupefacto, pensando que tamanho incêndio teria de ter causa criminosa, oscultava os bolsos da consciência para se certificar de que não era ele o incendiário ,a duvida consumia-o não sabia quantas leviandades o tinham conduzido ás aras do crime O espelho não quisera saber dele devolvia-lhe sempre o mesmo rosto ,por vezes via –se como o assassino de olhos de platina que iniciara a morte da Arte, algures, na terra de Jack o estripador ,numa Paris-Londres bruxuleante de lantejoulas de petróleo e gás de iluminar a rua.Em tempos tinha habitado o prédio, embora nunca lá tivesse querido residir Para si era normal andar pelas ruas erradas a procura da sombra teimosa que o ignorava como a um filho desnaturado, morto que estava para a luz do dia e para as mãos de lavrar a terra e saborear os seus frutos . Deglutia com a saliva da ganância e o medo cariado dos dentes sarcásticos o pão da angustia. Sentia-se filho da chuva e do granizo e das noites passadas ao relento nessa varanda virada ao vazio Agora podia a ver arder para todo o sempre, A vertigem de saber que o cuspo sabia a fel e não estava pronto para a cadeia , Fecharia o pensamento para todo o sempre, seria de outros o que sempre achara seu, como as pegadas de uma mosca lavadas por torrentes de insignificantes gotas de orvalho.Os olhos estrelados de vermelho ,reflectiam as matizes do fogo aceso no topo do prédio que se consumia num fósforo ,hirto como um condenado á inquisição Era o adeus aos laços cor de rosa de uma vida de esquecimento e abandono, no sulfuroso lar que aí construíra, para a missa do quotidiano em família, e sermões de sobremesa fria no palco da geladeira. Do romance "Contos da Praceta" de Alda Pinto-----
Olhava para baixo, o queixo apoiado nos flocos de algodão, ondulava nas correntes mornas vendo e não vendo o que sempre se aproximava, talvez o viessem importunar?... algum carente, por ali sempre havia quem se quisesse içar e não olhasse a meios para o fazer. O vento no entanto, encarregava-se de o afastar dessas figuras funestas. A luz sugava-o como uma mãe protectora: Vem para aqui amorzinho! Sibilava-lhe baixinho. Deixava-se então, levar pela brisa cálida, girando sobre si próprio, rebolando ao sabor dos amenos safanões como uma folha de diário rasgado em dia de bons auspícios. Via o pequeno buraco negro donde em tempos partira expelido pela fumarada sulfurosa que o arrotou para a claridade fresca de um dia de outono lúcido e justo. Era o que pedia, os olhos lavados da manhã, esperando firme o autocarro para o Lumiar.Estrelinhas cintilantes cravadas nos dentes olhavam–no, berlindes zarolhos de afeição e malícia, ofegante como uma boca de rã, escorria babas e molhos. Tinha chegado a hora das delicias, o papo-seco, o fiambre, espremiam queijos frescos pelos queixos abaixo, os lábios percorriam sôfregos essas estradas gulosos e altivos. O amor procurava-se na língua tesa penetrando a boca, direito à campainha.Trin-trin, os olhos viravam-se para dentro e um sol cegava tudo, era o vento que o içava pelos os ares, nariz enfiado nos fios de reflexos acobreados a cheirar a shampô de limão. Celeste era o seu nome, D a sua turma. Extractos do” Diário de Borbulhas”Edições da loja.
O regresso ao paraíso era o seu objectivo, quando de lá tinha saído, deixara Fiona e Idalina na praia, deitadas na areia dourada, os seus corpos crepitando mil luzes coloridas de meter medo ao deslumbramento de qualquer baço.A vida cá fora, era um longo filtro cinzento de condenados, aflitos à babugem de orgone.A energia vital escasseava, apenas algumas ervas quase secas emitiam pequenas vesículas verde desmaiado da energia do amor.Morria-se de asfixia moral, o pensamento não se fixava, a mente rodava sobre si própria como uma tômbola, os olhos estrábicos da multidão dobravam as imagens criando duplos personalizados que caleidoscopicamente se cruzavam em diálogos equivocados de sombras.O sol nascia enfastiado de alimentar este campo de indigentes apressados para a festa do pesadelo.Marcus via tudo isto com indiferença, olhava o mar de ouro que atravessava a terra e sorria ao ver as ondas nascerem com a cara voltada para si, num olá/adeus que foi engano, o mar lindo dos enganos assim chamava ao manto de energia que tinha dentro de si a rebentar cá fora. Extracto do romance de Alfa da Silva “Regresso ao Paraíso”Funcionário da E D PEscritor ao Domingo
A gaja andava mal da carola, o marido desde que chegou a Portugal , só pensava nas putas, não é que na terra dele não as houvesse, até as expõem nas montras, como aos outros artigos de consumo. É isso, o gajo era um mero consumidor de putas, Portugal oferece uma variedade para ele desconhecida, morenas, narigudas, atarracadas e com o invariável, grande cu. O deutch farejava-as com o seu instinto de rafeiro netherlander. A tipa era doida por cavalos, uma chavala quarentona afanada pelos desvarios do alterno hippie, tinha dado a volta à Índia em side-car, tal como o astronauta inter-galático, ao fim de um ano, percebeu que o tempo é relativo e que tinha vivido quase a vida toda num só ano e regressado à Europa como um habitante do planeta dos macacos. Valha-nos o amigo Veríssimo, trinta anos no cadastro, a curtir o body building, full contact no Pinheiro da Cruz, muitas fintas de cantina e algumas rachaduras no crânio deram-lhe o humor possível neste país: assustar as criancinhas na era pós- comunista, anarquista de serviço nas ruas de Olhão a lembrar os resquícios da cultura castiça com cheiro a sardinha e alfarroba. A mula da cooperativa que nunca deu dois coices no velho telhado salarial.Corri com a estrangeirada do meu quintal, já me basta aturar os indigentes deste país, para ainda comer com a sarna dessa Europa Viking de cabelos deslavados e olhos electrónicos à procura de energia grátis para carregarem a pilha da prótese tecnológica que trocaram pela alma.Sou fadista, sou fatalista e tenho sempre razão, ninguém me rouba o brilho cintilante das águas trémulas do cais, filigrana de pensamentos que tecem rotas no planeta e no cérebro dos que o desvendaram. Gosto de falar com gente como eu, e nas voltas todas do mundo só os encontrei na minha terra. Sou atávico tradicionalista resisto às inovações, não gosto da cidade nem da gente que lá mora e muito menos dos que de lá fogem e vêm dar-se ares para ao pé dos indígenas, recusei um futuro promissor de Engenheiro Civil em troca de um curso de linguística animal e, posso garantir que o Rei dos animais é o Burro, por isso transportou o Rei dos Reis na mítica Jerusalém.Percebo melhor que os burocratas anémicos que compõem o Governo que a solução para a famigerada crise económica não é inovar mas sim conservar só temos sabedoria para vender, sabedoria secular de quem tudo viveu e conheceu, sabedoria resignada ao fado da morte fatal que é filha do mar e de Portugal.Saudades do Império mestiço, que nos pôs uma avó em cada canto do mundo, desse Oceano que levamos no peito desértico e sem fronteiras onde a fala vem sempre de Deus. Sim! Deus existe e é Português do signo Peixes e morre todos os dias no mar, multiplicando os peixes e saciando a fome dos mortais. Tenho cérebro de golfinho, muitas circunvalações sem portagem e auto-estradas de conhecimento mais velozes que a estrábica “Net”, sou telepata e posso estar em todos os lugares ao mesmo tempo, sou eterno e renasço das minhas cinzas, não passo cartão a individualistas que confundem a essência com o boneco, e quero viver em paz para ver nascer um pôr-do-Sol em todos os planetas que somos.
...Enquanto Elliot e James fecundavam a sua estranha cumplicidade no lusco fusco dos vazios aposentos do palácio de Miss Elliot na província da Parvónia, lá longe nas lindas praias da Costa Sul Anton Mechirikov, rondava o quarteirão atraído pelo cheiro a rosas das várias lojas de flores que o bairro possuía.Mechirikov sempre fora um sentimental fanatizado pelos perfumes, nada o contrariava mais que o cheiro a cadáver que, por vezes nas sarjetas das ruas se fazia sentir, quando por distracção ou descuido alguém deixava o lixo doméstico à porta das belas lojas do bairro.Esse era o hábito de James, o gosto imundo fazia-o transformar a bela atmosfera florida e odorosa do Petit Cartier (assim era conhecido o “pequeno bairro”) num nauseabundo sarcófago que, da sua janela na torre, olhava com apetites vorazes de vampiro senil em busca de faustosos repastos que, a memória da Parvónia lhe trazia para seu desconsolo e tédio. Dirigia-se então, para a sala de banho à procura dos despojos menstruais, consolando-se depois na cozinha com caldinhos masturbatórios cujas receitas enviava aos amigos, entre os quais e em destaque Miss Elliot.Mechirikov conhecia-o, quando dissimulado de jardineiro o ia visitar para, a pretexto das tertúlias agronómicas em passeios didácticos, procurar nas ervas secas algum cadáver a jeito onde pudesse ferrar. Generosidade que os verdadeiros predadores tinham para esta rapina incapaz de caçar o que fosse para alimentar a gula desorbitada que se lhe sentia no olhar.Por várias vezes, James tinha sido escorraçado quando tentava espetar o dente em presa viva : uma pata choca, ou mesmo uma andorinha do beiral, eram presas inacessíveis à sua desajeitada destreza de abutre, só os despojos eram acessíveis a esta ave agoirenta. O mesmo se passava com Miss Elliot.(...) Extractos do Romance inédito “Abutres e Hienas”Sir Joseph Badmington, London 1839