sábado, 22 de maio de 2010

... cinismo e impotência, sinais de decrepitude meu caro James!- A nossa cumplicidade profunda Mss Elliot!- A solidão em que fiquei depois do Sir Hallicot me ter deixado naquele fatídico Verão em Yorkshire, a mim e aos meus filhos, que só pela imensa bondade de Sir Fred e Lady Mary, não caí no mais negro e tenebroso abismo que às almas sensíveis, como a minha, parece o destinado.- Não sejais tão pessimista, a tragédia tem sempre algo de apetecível e por vezes gostoso.- Que humor tão sinistro tendes por vezes, James!- Nasci assim, e já a minha ama notava uma corcunda pronunciada, agoiro familiar que nos atira para a necrofagia.- Credo!, Sir James falais como ave de rapina.- Miss Elliot, há uma fase na vida de todos nós, em que devemos assumir a imagem que o espelho nos retribui.- Quereis dizer que vos sentis uma espécie de abutre?- Nem mais! Mas acrescento que nunca me passou despercebido em vós um certo gemido que evoca a selva, mais concretamente aqueles latidos sinistros que enunciam os repastos da podridão.- Julgo que insinuais que estais defronte de um chacal ou hiena.- Nem mais! Minha cara Miss Elliot.- Que ofensa, Deus do Céu!- Sempre admirei a forma ingénua com que disfarçais o vosso gosto por carne podre.- Contenhais-vos, peço-vos!- A verdade virá ao de cima, o homem não estava morto e vós tentastes arrancar-lhe as vísceras, por isso acorri logo a ajudar-vos, não simulais agora a inocência.- Estranha cumplicidade a nossa, o amor nasce em nós do desejo necrófilo?- Não somos os únicos, e isto tende a acentuar-se com a idade.(...) Extractos do Romance inédito “Abutres e Hienas” Sir Joseph Badmington, London 1839

Sem comentários:

Enviar um comentário