sábado, 22 de maio de 2010

Os pés doíam-lhe, há três dias que caminhava quase sem parar.Passou a escova no cabelo num gesto lento e preciso.A rede enlaçara-se nuns caixotes de fruta para ali jogados ao acaso.Os lábios ressequidos pediam um pouco de água mas só o suor escorria salgado, olhou para o lado, o exemplo de Deolinda, a vizinha amiga e solidária que a incentivara, devolveu-lhe o ânimo.Via o seu formosinho rosto, ainda imberbe, ganhar os contornos de mulher fatal. Os seios empinava-os com as mãos, formando um rego bem vincado, um cu saindo pelo decote da camisa.Foda-se! Tinha os pés dentro de água e um buraquito na sola inundara-lhe a bota regelando os dedos, puxou com força e sentiu a malha estriçar soltando-se, caiu de costas mergulhando o corpo quente e enchuto naquela água gélida.Mergulhou completamente, a água massajava-lhe a pele quente, olhava o seu corpo na ondulante transparência, lá ao fundo um tufo de algas negras ondulava, no centro uma boca, que podia ser de peixe, babujava ofegante.Arfava exausta, as pernas tremiam-lhe, o corpo desfalecia lentamente, sentia o cansaço invadir, os poros abertos e gotejantes.Jogou a mão tateante, procurava o buraco, às cegas queria abri-lo mais, introduzir um dedo e assim talvez conseguisse que ela se desprendesse definitivamente.Um vapor quente subiu-lhe ao rosto, corou, deixou-se escorregar flutuando até à lâmina de água que lhe corria entre as pernas.A sede desnorteava-a, podia perder o controlo, segurou-se apertando firmente a vara, encostou a cabeça e num acto reflexo passou os lábios por ela, revirou os olhos de prazer, um cheiro a ervas silvestres transportou-a por instantes a um paraíso fresco, um opurtuno oásis, na rota do desejo, da sua sede ardente.Tinha o dedo no orifício e prescutava com todo o cuidado para nada danificar, os dedos grossos enchiam-se de um cuidado excessivo quase grotesco, sentiu um hálito quente envolver-lhe, primeiro a cabeça, depois todo o corpo do dedo, sondou com mais cuidado, uns pequenos cílios ondulantes varriam-lhe as falanges, incitavam-no a penetrar mais fundo, num gesto decidido enfiou tudo chocando com uma matéria esponjosa.Ahhhhhhgg - exclamou! os olhos em alvo, olhavam cegos o Céu procurando resposta, auxílio do alto, uma onda inebriante tomara-lhe o cérebro de assalto, tudo se turvou e desfaleceu num clarão de uma brancura inexplicável.António Tavares acabara de dar uma forte turra na carcaça do barco, quase perdendo os sentidos, despertou com o toque do telemóvel embrulhado num plástico em cima do banco da barcaça.Sim! Está! António, atende por favor! reclamava Deolinda, agora acoitada na camioneta à porta do santuário.Fátima ergueu-se! Vénus renascida! A água escorria enchendo de pérolas a pele mármorea rosa desmaiado, puxou a toalha cubrindo-se; no espelho embaciado uma Virgem surgiu.Valha-me a Virgem Santíssima, que quase aqui me ia indo!Não responde? ainda “n´a se veie” exclamou irritada Deolinda de Jesus.A Virgem contemplava enternecida o corpo do milagre, não acreditava ainda que se tivesse vindo! Na banheira? Interrogou maliciosa.- É bom, humm, muito bom… suspirou!

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