sábado, 22 de maio de 2010

Luduvico olhava perdido o céu sem fim, pensava na sua aldeia na Baviera.Prostrado, agonizava sob aquele Sol escaldante, a ambição e a necessidade de governar vida levara-o a alistar-se nas hostes Sebásticas,para um presseguido gnóstico Porto Graal, como gostava de chamar, era o único lugar no mundo onde se sentia seguro.Porém, agora com o sangue a subir-lhe à garganta vomitava a guerra e todo o desvario que o sonho Lusitano tinha lançado em terras de Mofomá.No Algarb de Cima a vida fora bem mais tranquila, recordava pesarouso a corrida de touros na praça do convento de St.ª Clara na cidade de Faro dos já há muito idos senhores Al Haruns.Vira aí o garboso rei Sebastião lidar o mais feroz touro da tarde, o altivo porte germânico na sua elegante figura montando um belo lusitano branco faziam–no semelhante na magnitude ao seu avô o Imperador Carlos V senhor da Espanha e do enorme império Austrohúngaro .Seria talvez por isso que, deslumbrado e seguro pelo sangue da real figura, embarcava no sonho conquistador do último dos reis da Cruzada Templária.Longe, ouvia-se o alarido dos derradeiros combates, o Lusitano viçoso das touradas de Faro corria agora assustado pelos petardos da bombarda, o seu dono, o cavaleiro da armadura de prata batia-se no chão com duas cutiladas em cada perna A expressão era beatífica, a ferocidade não lhe roubava o sorriso irónico. Morria saboreando a luta lentamente, bailava ajoelhado nos coutos banhado de púrpura escarlate, luzindo o ferro ao sol poente, perto José de Vivar, seu leal e fiel companheiro de sempre gritava-lhe: - Morramos, mas devagar! meu bem amado Sebastião, que o Império renascerá nestas Terras do Templo.Vivar era descendente de Rui Dias de Vivar, o Cid Campeador, o maior herói peninsular. Corria-lhe nas veias a vontade de justiça e o espírito de cruzado Ibérico, metade Mouro metade Cristão, como desde o inicio a ordem templária de Cristo vulgarizou.. Nessa diáspora moçarabe que foi o império Português, o eucumenismo e a tolerância por todos os credos era a lei dos descobridores.Incorporara a Ala dos Espanhóis que comandava sob as ordens de Sebastião, reconhecia-lhe dons beatíficos, uma iluminação rara, os santos da estatuária não o saberiam traduzir, só o S.Vicente dos painéis de Sintra mandados pintar pelo heróico João I, para celebrar, pelo punho de Mestre Nuno Gonçalves, genro do inventor da pintura moderna, VanEyck, a religião do Espirito Santo.Sebastião deleitava-se com os amigos a contemplar essas dignas figuras, símbolos do engenho nacional, costumava reconhecer os seus companheiros nas figuras retractadas como representantes do melhor da nossa raça, ali reconhecera o luso hispânico Vivar, chamava-lhe o homem de trás, pois dele só se via a cabeça no plano último do quadro.E era de trás, sim senhor, tal como o Cid seu antepassado, tinha o sentido do serviço desinteressado, senha dos verdadeiros heróis. A vontade de justiça, levavam-no a colocar-se na retaguarda e zelar pela missão até ao fim; a dar força a todos os que noutras posições mais avançadas iam recuando em cobarde desânimo, empurrava-os para frente continuadamente gritando impropérios e obscenidades ou evocando os ideais da conquista.Assim, estava acontecendo nestas horas derradeiras em Alcacer Kibir, ele e Sebastião desfaleciam sobre a cobarde sanha de um montão de mouros, os dois lado a lado, os guardiões do poderoso exército desmantelado, o homem da frente e o detrás unidos como a serpente sagrada oroboros lutavam cientes que o seu fim seria o renascimento eterno do Graal, Porto Graal perder-se-ia ali, sob a fúria cobarde da fanática moirama, roubando ao mundo o seu sonho ecuménico, as trevas sobreviriam!O Norte e o Sul fariam uma fronteira encarniçada, lançariam a humanidade no caos. Cristo e Maomé lutariam na mente atrofiada pela ganância que, a norte, sem mística reduziria o humano, em angústia suicida, à máquina robótica. A sul, o azedo sabor das areias pútridas fanatizaria a inveja e o ciúme na intolerância dos pobres encomendados a Deus.O Sonho Ibérico forjado nas andaluzias moçarabes, dera ao mundo novos mundos, e riquezas sem fim, ensinara a Terra Una, superara todas as civilizações conhecidas, unira a humanidade, e criara a Raça do Futuro nessas Américas Multiraciais, que o Sémen Ibérico fundou com genes alimentados por todos os ecossistemas. Sentado numa esplanada, bebendo sucos leitosos sob o Sol ameno, no torvelinho do mercado, AlKacerKibir, falava-me de mim. Finquei os dedos no solo, levei a terra à boca, senti o sangue encher-me os olhos numa tontura de ódio, gritei:- PortoGraal!Os olhares do rebanho, viraram em unísono para mim, um ancião à minha frente sorriu cariado. Esquálido e ligeiramente curvado, gritou numa gargalhada extasiada: Porto Graal, PortoGraal!Todos aplaudiram saltando e dançando rindo entusiasmados, abri os braços, e exclamei, olhos no alto:- Alcacer Kibir!Fez-se um silêncio súbito, duas mulheres avançaram trazendo uma jovem pelas mãos, chegadas junto a mim, ajoelharam-se empurrando ligeiramente a adolescente na minha direcção, baixando a cabeça com veneração, disse em voz trémula:- Meu Cid!O Velho olhou-me malicioso, e pegando na minha mão, colocou-a sobre a dela, apertando as duas firmemente.Intrigado, perguntei: - Quem é esta moça? Árabe (pensei).Foi então que, uma voz maviosa se desprendeu como um pássaro branco daquele corpo franzino: - Sebastiana, Cid.Lancei o olhar em redor, a multidão olhava-me com irionia alguns apontando para mim repetiam: - Sebastiana! - Porto Graal! – Cid!Gritei, então, com a maior das convições: - PORTO GRAAL!!Ouvi um eco imenso, uma enorme turba ocupava agora o centro do mercado, frente à varanda da esplanada onde me encontrava,Senti a febre da liderança a crescer nos olhares, alguns homens avançaram e pegando em mim levaram–me em ombros gritando: - Portgraal! Sebastiana!Passei então, umas grandes portadas com arcos manuelinos onde julguei ver as armas portuguesas, entrámos em grande correria pelas muralhas de uma fortaleza, os cães latiam e as crianças saltavam, excitadas pela multidão em avalanche. Estacámos junto a uma muralha. Entre as ameias via-se o mar o belo e imenso Atlântico A escarpa abrupta polvilhada de lírios silvestres de uma brancura imaculada terminava numa praia dourada com um pequeno porto, onde, soberana, atracava uma bela traineira, no mastro, uma bandeira Portuguesa flutuava garbosa, na proa desenhado em letras góticas estava o nome: Sebastiana de PortugalApontavam para mim e para a traineira, receei que me quisessem acusar de algum tráfico ilícito e me fossem agora jogar pela escarpa abaixo, vi então alguém a acenar do barco. A multidão arrancou súbito e em alguns minutos estávamos lá em baixo, nada percebi do trajecto, preocupado que estava em não cair dos ombros dos meus transportadores.Chegados, fui posto no chão. Um homem que percebi ser meu compatriota, apertou-me a mão,- Joaquim do O, sou o mestre, somos de olhão!- O amigo parece que é cá famoso?…, todos os dias oferecemos um garrafão de vinho tinto, em troca dão-nos artesanato de categoria e droga.É um bom negócio e para nós acrescenta ao peixe que, anda pelas ruas da amargura, mas afinal quem é você?- José Vivar, vivo no Algarb de cima, como vocês!- Agarb de Cima?, essa é boa, nunca tal tinha ouvido.Olhei para o lado, Sebastiana parecia querer dizer algo, quando foi interrompida pelo mestre.-È a Sebastiana, filha de Português e de uma cá de Alcacer, o pai desapareceu há uns anos, chamava-se Sebastião, era de Lisboa um desses drogados que para aqui veio fugido da polícia em busca de haxixe e da morte lenta, viveu aqui muitos anos, andava com um tal de José Vivar a quem chamavam o Cid, um gajo porreiro que todos aqui temiam e respeitavam. Os dois tinham um negócio, alugavam quartos e faziam expedições por Marrocos e Mauritania, até que um dia desapareceram sem rasto, a pensão continua fechada ninguém aqui quer ocupá-la, respeitam muito a memória desses dois, parece que eram unha com carne, a miúda, a Sebastiana é quase uma mascote da aldeia.- Agora estou a reparar… como é que vossemecê disse mesmo que se chamava?- … Humm, NINGUÉM, NINGUÉM…respondi evocando os Sebásticos enredos de João de Castro.- O vinho já regurgitava nas gargantas embriagadas do Kiff quando nessa praia de fogueiras semeadas, os voos meliantes das gaivotas deram lugar ao merismático canto dos adufes berberes e às nostálgicas melancolias do fadário AndaLusitanio.

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