quarta-feira, 19 de maio de 2010

Parecia-lhe estranho que os sentimentos alheios fossem tão indispostos.Há muito que não sentia tristeza nem dor, a sua disposição para a vida era excelente.Desanimar porquê?O céu e a terra bastavam-lhe, não queria mais do que isso, quere-lo era perder tudo e ser infeliz – pensava, seguindo o velho poeta do tempo Salazarista.Tudo nessa época era exacto, metafisicamente correcto.Deixava-se escorregar pelos momentos como um miúdo no parque de diversões.Tudo o divertia, mesmo quando arrepiava os nervos da maltinha ,que sentia pulular à sua volta. Carrinhos de choque suspensos na violência dos embates.Espera fanática de um desastre fatal que justifique o empenho de uma vida de inútil afã.Andava pelas ruas contrariando a pressa. Esfregava os ombros nas paredes, pisava o chão como se tivesse barbatanas, deixava o olhar prender-se no brilho oculto das pequenas dignidades escondidas da fúria cega do tropel.Com tudo falava, mimava os seus interlocutores como um espelho, sabia como Alice que do outro do lado espelho tudo era possível e mágico.Interessava-se pela magia, não a dos magos, mas a que se suspende entre dois olhares, entre ver e não ver.Tudo era fugaz e fantasticamente emocionante.Tentava registar esses momentos gloriosos mas ao fazê-lo a vida resplandecia mais alto com novas maravilhas e aventuras deixando a memória naufragar no imenso oceano do esquecimento.Tratava os homens célebres por tu, grandes artistas e escritores faziam-no sorrir malicioso, cumplicidades de infantário, brincalhões como ele sugeriam-lhe pequenas aventuras à revelia do olhar de caserna, das pessoas a sério, dos que tem que Ter para Ser.Fugia quando o queriam pegar pela manga, corria nu largando pele e andrajos, o vento lavava-lhe os olhos húmidos de uma tristeza feliz de não deixar o tempo silenciar-se, cantava hinos que lhe brotavam da alma como o suor do corpo.Pouco falava, também, não tinha interesse nisso, as palavras não lhe diziam nada, nunca lhe ocorreu mumificar o pensamento numa frase, balbuciava alguns sons que por vezes se pareciam com nomes conhecidos mas os olhos andavam mais depressa que a língua e as palavras caiam no silêncio antes que nos nossos ouvidos sonasse a finados.Um dia disseram-me que tinha saído em voo planado por uma janela de 5º andar, esmagou o corpo contra o chão depois de ter voado alguns segundos em radiosa felicidade, o povo estava atónito e repugnado com a façanha.Dizem que há um País onde habitam os génios, para lá chegar, os seres escolhidos encasulam durante uns tempos em narcísico deleite até que lhes nasçam umas translúcidas e brilhantes asas.Desde essa altura fico apreensivo com a ligeireza e leveza de certos seres e perfeitamente indiferente à densidade de outros.A inteligência e a estupidez tem pesos e espaços diferentes, de outra forma, não caberíamos todos neste mundo pequenino.

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