quarta-feira, 19 de maio de 2010
Diário de Fernandinho Artista Pintor de Sucesso Tenho 49 anos pertenço à chamada geração hippie, que em Portugal é a que tinha dezanove/ vinte anos quando se deu o vinte cinco de abril.A minha geração parece ter tido o seu clímax na Avenida de Roma nos fins de 60 e princípios de setenta Éramos os “enfants terribles” da burguesia liberal,os vulgares meninos “queques”, por contraponto aos meninos” bem” da linha.Os nossos pais são filhos de pequenos comerciantes e não grandes latifundiários ou banqueiros, como os dos betos de Cascais, afilhados dos Champalimauds, dos Melos ou Espirito Santo.Os betos davam- nos raiva, mas ao mesmo tempo admiravamos a sua classe. Éramos novos ricos e gebos! Levavam sempre a melhor no estilo e nas maneiras, parece que nos viam a careca quando armava-mos ao pingarelho, ironisavam sempre a nossa falta de jeito para ser finos.Só o dinheiro fresco os calava, pois a maior parte eram uns tesos, tipo pelintra, alugavam a sua companhia em troca da subvenções para as despesas nos copos e festarolas .Cheguei muitas vezes a mentir a minha origem social para me livrar da humilhação que me causava ser filho de um Silva, um Santos ou outro nome plebeu e vulgar, inventei parentes brazonados, quintas no norte, sangue estrangeiro.Hoje em 2004 trinta anos passados pertenço à esfera dominante dos possidónio que representam as altas rodas. Agora tenho à perna os filhos das empregadas, a colarem-se numa de promoção, sirvo-me deles, fazem-me favores, mas ignoro-os quando o social exige.A sociedade hoje é menos selectiva, mais confusa e promíscua mas o faro promocional não se perdeu, eu sei quem interessa na minha sede de poder.Achei a determinada altura, que era fino não trabalhar em coisas vulgares, plebeias, lembrei-me daqueles filhos de alguém que o eram por ter ocupações nobres e ociosas como: ser artista plástico, poeta , músico, entendi isso como um apelo de geração à criatividade, à liberdade de ser e exprimir o que se sente.O problema é que a minha única obsessão é ser alguém e o conteúdo do que digo ou pinto tem mais a ver com a necessidade de dar nas vistas, de provocar uma atenção basbaque, que me reconheça como um gajo de classe.Quis ser músico e depois de algum esforço consegui mecanizar alguns esquemas que me permitiram passar por artista e até fui contratado para actuar num bar, senti-me um pequeno Dylan, herói dos betos da minha infância.Gosto de música brasileira é ideologicamente a minha luva, novos ricos cheios de vontade aristocrática que os desmarquem da jagunçada. Os cantautores brasileiros são a fina flor do populismo elegante, os persurosos aristocratas da populaça emergente.A mim no entanto falta-me a graça e o jeito, nada em mim é espontâneo, a não ser a cagança, sou arrogante, não brinco em serviço, muito menos com os meus ideais, às vezes tento ser blasé dar uma de desinteressado, mas rapidamente se apodera de mim o medo de deslizar para a mediocridade que me anima profundamente. Amo o que não devo e isso horroriza-me, não gosto de mim. Nem de ninguém!Nunca namorei mais do que um dia, as mulheres podem-se-me colar ao sonho e as minhas ambições traem todas as minhas expectativas. Tudo menos perder este sonho de ser alguém de muito notável.Agora sou pintor, percebi que dava mais prestígio é menos populista, mais ocioso que o folclorismo dos animadores musicais, fora de moda, desde que a mensagem revolucionária deixou de dar prestígio.Nunca soube desenhar, nem tenho especial queda para isso, mas com astúcia vou montando as minhas pinturas que, para gente geba, funcionam como obras primas, copio tudo o que possa contribuir para prestigiar o meu trabalho, chego a copiar 90% do quadro de autores quando tenho a certeza que ninguém vai notar, aliás o meu trabalho, distingue-se por nunca conseguir o nível dos originais, imprimindo um cunho original por defeito que resulta sempre a meu favor.Odeio e amo a espontaneidade dos artistas autênticos. Conheci um que me irritava pela facilidade com que criava. Assustava-me a sua inspiração, o caos nos seu olhar, parecia doido varrido, nada que eu desejasse imitar, porém os seus trabalhos tinham aquilo que nunca vivi, autenticidade, faziam-me corar, defendia-me então dando-lhe concelhos inúteis, mas com o máximo de consideração e falso préstimo. Por várias vezes lhe roubei as ideias devolvendo-lhe o mérito, convencendo-o que éramos membros da mesma linha ou escola.Hoje, porém, já não pilho os amigos, vou direito às personalidades colo-me à obra de artistas de nomeada, estrangeiros de preferência e faço valer a minha assinatura. Trabalho com projectores que me reproduzem o slide na tela, é tiro e queda!Tenho um estilo próprio e defendo-o, houve quem dissesse que os meus quadros são pinturas mas não são arte, deixá-los falar, que eu já vou de Mercedes, e eles a pé. Sou um tipo feliz e realizado, não fosse um problema que me atacou o dente, o que rói, aquele que mexe o músculo da cara quando estamos a pensar.Já percorri todos os médicos, bruxas, curandeiros, mas o raio do dente não pára de me chatear.Como sempre comida natural, preciso de muita energia para a minha ascensão e prefiro poupar-me a grandes stresses, não percebo é esta dor que me rói o dente.Não fosse ela e eu dispararia rumo à celebridade! Funciona como um travão a magana!Coisas inexplicáveis ,como aquele velho amigo artista que fui visitar e que quando o cumprimentei me desferiu uma punhada nas ventas sem mais nem quê, indo-se embora a assobiar.Frustados é o que são esses capados que não tem tomates para singrar na vida
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